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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Quarto andar, apartamento quarenta e três

Às vezes você tem que perder algumas escolhas, mas Franz não conhece esse tipo de coisa. Por que deveria saber? Por que saberia?
Aí está, mais uma vez, Franz. Um novo dia começa e nosso amigo acorda: não é qualquer um que se levanta após ter apenas vinte minutos de sono. Já faz tempo que não se olha no espelho. Acende um cigarro, respira fundo e pensa na vida. Pensa na máscara da infância que caiu, pensa nas fantasias absurdas que achara que a vida era feita. Tudo ilusão. Oras, você conseguiu se libertar da sua família, porque não estaria feliz? Por que não liga para alguma de suas namoradas? Por que não toca alguma de suas canções tristes para alguma delas? Todas elas sempre gostaram de te ver mal.
Colocou uma blusa, trocou de calça e calçou o tênis. Desceu as escadas até chegar a garagem. Colocou o capacete e ligou sua moto. É um longo trajeto até seu trabalho, mas hoje seu trajeto é outro. Franz, por favor, não vá por esse caminho. Você sabe que não vai voltar.
Parou a moto, tirou o capacete e sentiu o vento bater em seus ossos. Perguntou a si próprio se queria realmente fazer aquilo. Sim, queria. Ainda tinha as chaves. Subiu até o quarto andar, apartamento quarenta e três. Bateu na porta, mas ninguém atendeu. Outra porta fechada em sua vida, não? Insistiu sem resultados. Colocou a chave na fechadura, abriu e entrou. Viu o que não deveria ver. Encontrou sua namorada morta com um bilhete no chão. “Sinto muito, Franz.” dizia o bilhete.
Por que isso aconteceu? Será que foi a discussão da última noite? Você não prometeu a ela que você ia ser feliz? Que ia sair da eterna depressão? Ela deve ter se cansado de tanto esperar. Sua tristeza a contagiou, Franz.
Franz saiu do apartamento. Deixou a porta aberta. Não vai conseguir esquecer tão cedo as veias abertas da sua namorada. Coloca o capacete e volta para seu ponto de partida.
Franz, você perdeu a única pessoa na qual você apelidou com o mesmo nome do seu violão; e agora?
Ele sobe as escadas e entra em seu ponto inicial. Abre o armário, pega dois copos vazios e a última garrafa de conhaque que estava em cima da mesa. Serve os dois copos. Mas algo está errado. Ele esqueceu de pegar seus remédios.
Destacou todos os calmantes e remédios para depressão que tinha conseguido ao longo dos anos. Se nenhuma terapia funcionava, agora ele finalmente acharia algo que o concertasse. Colocou todos os remédios em um dos copos. São muitos. Franz, tome cuidado.
O primeiro copo, ele derrubou no chão. Bebeu o segundo copo junto dos remédios com uma voracidade nunca vista antes. Franz, nunca te disseram que é falta de educação viver a vida sem amá-la?
Tudo vai ficando escuro, não? Sinta o calor. Aproveite o último suspiro. Aproveite a última bactéria entrando no seu corpo... Franz, não morra. Quem vai tocar suas canções se você morrer?
Morreu.



Louis C.


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Franz, o egoísta

No outono de 1968, eu exalava inspiração: conseguia escrever sem bloqueios, sem empecilhos e em todas as noites daquele tempo, as teclas da minha máquina de escrever podiam ser ouvidas em harmonia com as melhores canções de blues da estação de rádio. Mas, foi então que lembrei que não estava mais naqueles tempos dourados, e, agora, tudo o que eu tinha era um último maço de cigarro e uns trocados no bolso.
A máscara da infância caiu e com isso, a ingenuidade e leveza que antes podiam ser notadas a cada palavra dita pela minha boca, já não existem mais. O mundo não é mais dos espertos, mas sim dos gananciosos e como não quero nada, este mundo não pode ser meu e tampouco é minha intenção me apropriar dele. Oras, eu sou só mais um ser humano frustrado. Não conheço e não quero outra denominação que não seja esta.
O que me resta é passar horas deitado olhando para o teto, deixando as cinzas do meu cigarro cair sobre o lençol de minha cama, talvez com a falsa ilusão de que consiga atingir o nirvana, ou que talvez algum desconhecido venha me salvar do meu pior inimigo.
Meu nome? Franz. Nunca conheci e nunca hei de conhecer um inimigo tão cruel e avassalador que seja capaz de me encher com dúvidas sobre a vida, matar lentamente o meu niilismo e transformar cada dia em uma eterna batalha, como faz a minha mente.
Meu nome? Egoísmo. Seja lá o que eu fiz na outra vida, minha missão desta vez é apenas pagar o preço.

Louis C.